Júlia estava numa daquelas marés baixas. Andava reclamando de tudo. Desde o trabalho, amigos e ainda sobre seus relacionamentos, que nunca davam certo. Falta de dinheiro e a falta de educação das pessoas na rua também eram assuntos freqüentes em sua pauta de conversas. Sem contar que vivia em um lugar que odiava.
- Odeio essa cidade!
Havia mais de uma semana que ela estava de cara feia. Mais feia que o habitual. Cansada de reclamar e não ser ouvida, ver suas lamentações servirem de chacota para outras pessoas e ainda perceber que nada mudava em sua vida, ela toma uma decisão drástica: resolve se matar.
- Merda de pessoas e de lugar! Cara, nada aqui dá certo. Nada vai pra frente. Minha vida está uma merda. Você acredita que hoje de manhã um cara passou de carro e ficou buzinando de manhã, bem no meu ouvido! E ainda me cantaram na rua! Como eu odeio esse povo atrasado. Odeio odeio!
Escolheu uma ponte na qual poderia se jogar. Era tão alta que com certeza não sobreviveria à queda. E a correnteza do rio se encarregaria de levar o seu corpo para longe, o que era perfeito. Ela não queria correr o risco de ser enterrada em um lugar que odiava tanto.
Preparou-se. Inclinada sobre a beira da ponte. Olhou ao seu redor. Todo o metal que compunha a ponte, estava enferrujado. Um laranja meio sinistro. Além da ferrugem, a imundície compunha também outro ponto a ser observado. Ela já estava se sujando só de estar encostada ali. Na água, um sofá boiava e galhos eram levados pela correnteza. O marrom da água atiçava ainda mais a imaginação.
- Merda! Eu é que não vou ficar aqui, me jogar nessa imundície e nesse atraso de vida! Droga! Nem pra isso esse lugar presta! E ainda esse povo atrasado já está todo me olhando! Que é? Que vocês estão olhando? Porra!
E saiu vociferando seu desprezo, enquanto as pessoas achavam aquilo muito engraçado.
LANÇAMENTO DE LIVRO NO MUSEU DA PRAÇA
Há 5 anos